Biólogo altera o DNA de camundongo
e eleva sua memória e sua capacidade de aprendizado
PETER MOON - Reportagem extraída da Istoé.
Muito se discutiu nos últimos
anos sobre os diversos aspectos da inteligência. Houve desde teorias preconceituosas
como a do livro A curva do sino (1995),
que garantia ser a disparidade social
entre brancos e negros nos EUA razão direta de uma suposta maior inteligência
branca, até a idéia de que o principal fator de incremento do raciocínio
seria o estímulo da sensibilidade, tema de A inteligência emocional, de Daniel
Goleman, também de 1995.
Enquanto os teóricos da
neurologia gastavam seu tempo (e o de seus leitores) em áridas e longuíssimas
defesas de suas teses, um biólogo da
Universidade de Princeton, em Nova Jersey, passava seus dias alterando o DNA de camundongos para, em
seguida, testar suas capacidades de
aprendizagem. Na quinta-feira 2, Joe Tsien publicou os resultados dessa
pesquisa na revista Nature. E subverteu tudo o que se conhecia sobre a inteligência.
Alterando um gene do DNA dos camundongos,
Tsien elevou suas inteligência e memória,
mostrando como são intimamente ligadas
ao código hereditário.
Em primeiro lugar, Tsien criou camundongos desprovidos de um gene
chamado NR2B e mostrou que tinham aprendizagem
e memória reduzidas em relação aos ratos normais. O geneticista produziu então cobaias dotadas de cópias
extras do gene e checou sua aptidão comparada à dos ratos comuns. Todos foram postos em gaiolas onde puderam
explorar peças diferentes de um jogo de armar como o Lego. Passados vários dias, uma peça foi trocada
por uma nova e os camundongos recolocados na gaiola.
Os animais transgênicos reconheceram o objeto antigo e não
perderam tempo, trataram de explorar o novo. Já os ratos comuns gastaram o
mesmo tempo com as duas peças.
No segundo teste, o pesquisador testou a memória
emocional dos ratos. Eles foram postos numa câmara onde recebiam choques nas
patas. Quando recolocados no local após uma hora, um dia e dez dias, os
transgênicos demonstraram mais medo que os demais. Por outro lado, ao repetir a
experiência no mesmo local, mas sem os choques, eles perceberam mais rápido que
o perigo havia passado. Na prova final, os bichos foram jogados numa piscina.
Numa das bordas, submersa, havia uma plataforma para ajudar a sair da água. Os
transgênicos aprenderam a localizar a plataforma em três sessões, enquanto os
outros precisaram de seis. "Eles estão aprendendo bem melhor e lembrando
por mais tempo. São mais espertos", declarou Tsien, lambendo suas crias.
Ele salientou que os ratos retiveram até a
idade adulta a capacidade de aprendizado da juventude. Da mesma fora que nos
humanos, acredita-se que os ratos jovens apreendem mais rápido que os adultos.
Fechadura dupla – A pesquisa provou que o gene NR2B é
fundamental no controle da habilidade cerebral de associar um evento a outro,
propriedade básica do aprendizado. Genes podem ser entendidos como receitas
para a produção de proteínas com uma ação específica no organismo. O NR2B é responsável por uma proteína que
adere à superfície dos neurônios, as células do sistema nervoso. Essa proteína funciona como um receptor, um
plugue onde sinais químicos se acoplam. O receptor chama-se NMDA e opera
como uma fechadura dupla. Precisa de duas chaves – ou sinais – para abrir. Se
ambos chegam ao mesmo tempo – por exemplo um associado à visão de fogo e o
outro à sensação de dor –, o receptor é ativado e uma memória formada – no
caso, a de que contato com fogo dói. Por
disporem do gene NR2B em abundância, os neurônios dos ratos transgênicos têm
mais receptores, portanto aprendem mais rápido.
A descoberta abre caminho
para, no futuro, empregar-se manipulação genética no tratamento de humanos.
"Este trabalho levanta a possibilidade de não só produzir-se animais mais
espertos como também obter uma terapia genética para uso humano em áreas como a
demência", aposta Ira Black, chefe da cadeira de neurociência da
Universidade Rutgers, de Nova Jersey.
Aqui cabe uma ressalva: sabe-se que os seres humanos
possuem um gene correspondente ao NR2B, mas seu efeito na inteligência ainda
não foi estabelecido.
Para Joe Tsien, sua
descoberta indica ser possível elevar o QI, o coeficiente de inteligência,
através de meios genéticos. Isso suscita questionamentos éticos seríssimos,
decorrentes da tremenda tentação que será poder um dia elevar a própria
inteligência – ou a dos filhos – aos níveis probabilísticos de um mestre de
xadrez. O gênio foi solto da lâmpada e nada poderá prendê-lo. "Demos os
primeiros passos na direção de um mundo onde poderemos projetar nossos
descendentes", diz Arthur Caplan, diretor do Centro de Bioética da
Universidade da Pensilvânia. "Não acho isso necessariamente ruim. Encontrar meios de reparar autismo e
retardamento mental associados à síndrome de Down ou ao mal de Alzheimer é
muito bom. Mas não estou preocupado em ver um dia hordas de Einsteins na minha
vizinhança", diz Caplan.
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