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terça-feira, 20 de novembro de 2012

COMBUSTÃO HUMANA ESPONTÂNEA - UMA REALIDADE VIRTUAL

             A combustão espontânea do corpo humano consiste de uma auto-inflamação seguida de uma combustão mais ou menos completa de um ser humano, sem causa reconhecível. Chama-se Spontaneous Human Combustion (SHC). Foi designada igualmente como pirocinesia e consciência incendiária. Diferentemente da inédia, mais particularmente circunscrita aos estáticos, esta misteriosa calamidade parece atingir pessoas absolutamente comuns. Ela faz parte de uma extensão futura da fisiologia. Os casos de combustão espontânea são numerosos, perfeitamente autenticados e modernos. Como, na maioria dos casos, ela leva à morte, esses casos figuram nas atas da polícia e nas decisões da justiça. A distinção entre a combustão e a inflamação espontânea, feita por certos autores, não é essencial. Os dois fenômenos podem estar ligados. A inflamação sem fonte próxima ao corpo poderia explicar-se, pois conhecemos os corpos que se inflamam espontaneamente no ar. O inexplicável está mesmo na combustão da substância do corpo, que não é, normalmente, combustível. Esta reação desconhecida poderia levar à inflamação espontânea, unicamente pelo efeito exotérmico, sem a intervenção de qualquer fonte externa. Foram realmente registrados casos de pessoas capazes de desenvolver, na superfície do corpo, cargas de eletricidade estática podendo atingir 30.000 volts e provocar faíscas. Esse fenômeno poderia explicar a inflamação brusca, mas certamente não a combustão em si. 

Os fatos 

            A combustão espontânea do corpo humano é conhecida há muito tempo. Em 1763, Jonas Dupont apresentou, em Lyon, uma tese de doutorado: De incendiis corporis humani spontaneis; ele foi o primeiro a tratar do assunto oficialmente. Vicq d'Azyr diz ter conhecido pessoalmente vários casos do fenômeno (Encyclopédie méthodiqué). Entre os trabalhos recentes, citamos: Firefrom Heaven or How Safe Are YOU from Burningl (Fogo do Céu ou o quanto VOCÊ está seguro de não queimar?), de Michael Harrison (1976). Uma moça de dezenove anos, Maybelle Andrews, dançava com seu amigo Billy Clifford num night-club, de Sono, quando se viram chamas brotarem de suas costas, de seu peito e de seus ombros, atingindo seus cabelos. Ela morreu antes de chegar ao hospital. Billy, gravemente queimado tentando salvar sua amiga, explicou que não havia chamas nuas no local; elas pareciam brotar da própria garota (Shurmacher). Phyllis Newcombe incendiou-se sem razão aparente e foi queimada diante de uma multidão, num dancing, em 1938. O Sheffield Independent relata o caso de um empresário da construção, G. A. Sheferdson, que acenava para um grupo de operários os quais ultrapassava, de carro, quando estes o viram transformar-se repentinamente numa tocha humana. Em outros casos recentes, pessoas foram queimadas parcialmente na cabine de seu caminhão, sem que se pudesse descobrir a menor causa para isto (A. F. Smith em Birkenhead, M. Éveillé em Arcis-sur-Aube). A eletricidade estática poderia ser invocada, mas não no caso de Maybelle Andrews, que estava dançando o watusi e cuja pele estava certamente coberta por uma fina película de suor. Aliás, os pneus de um caminhão não a isolam do solo?* O caso célebre e particularmente bem estudado de combustão espontânea é o de Mary Hardy Reeser, de sessenta e sete anos, de Saint Petersburg (Flórida). No dia lo de julho de 1951, um forte cheiro de queimado desprendeu-se de seu apartamento. Sua porta, cujo trinco estava quente demais para ser tocado, foi forçada. O ar do apartamento estava extremamente quente. Havia um círculo de aproximadamente 120 centímetros de diâmetro, dentro do qual se encontravam uma certa quantidade de molas de assento, um montículo de cinzas e alguns restos do corpo. O chefe de polícia, J. R. Reichert, declarou: "Até onde podem ir as explicações lógicas, aí está uma das coisas que simplesmente não pode acontecer, mas aconteceu". * Na realidade, é justamente o isolamento através dos pneus que propicia o acúmulo de eletricidade estática no caminhão, a qual não pode ser facilmente descarregada no solo. (N. da T.).

A condessa Cornelia Bandi de Cesena tinha sessenta e dois anos de idade quando queimou espontaneamente. O caso já é antigo, pois o Annual Register que o relata data de 1763, mas foi estudado pelo físico David Brewster. Os vizinhos perceberam uma fumaça amarelada, muito espessa, exsudando das janelas do quarto da condessa. Ao entrar, encontrou-se um monte de cinzas a 1, 50 metro da cama. Do corpo, só restavam as duas pernas e uma parte do crânio. O ar do quarto estava cheio de uma fuligem em suspensão, da qual os móveis estavam cobertos; esta fuligem era úmida e colante e exalava um odor fétido. Nem os móveis nem o assoalho haviam sido danificados; apenas as duas velas de sebo sobre a mesinha de cabeceira haviam derretido, mas os pavios estavam intactos.
Curiosa combustão! O assoalho não se inflama, as meias permanecem intactas, assim como os pavios, o que indica uma temperatura não excedendo 120°C. Por outro lado, os ossos foram reduzidos a pó, o que exigiria uma temperatura de pelo menos 1.300°C, que teria provocado o incêndio geral do aposento, tanto quanto uma bomba incendiária. Por outro lado, ainda, a fuligem flutuante é característica das combustões incompletas a baixa temperatura, com uma oxidação insuficiente; e a fumaça amarela semilíquida, ou seja, pesada e compacta, é aquela das destilações a baixa temperatura.
O célebre médico Vicq d'Azyr relata, na Encyclopédie méthodiqué, que conheceu vários casos semelhantes, onde só restaram algumas partes ósseas.
Quando a SHC era ainda desconhecida, ao presenciar um corpo assim queimado, a polícia e a justiça só podiam concluir que se tratava de um crime. O caso seguinte é, sem dúvida, o primeiro em que o médico conseguiu convencer os magistrados do contrário e salvar o acusado.
Em 1725, uma certa Sra. Millet, mulher de um padeiro de Reims que se embebedava todos os dias, foi encontrada consumida entre uma masseira e uma salgadeira, que não tinham quaisquer marca de fogo. Do corpo só restaram as pernas e algumas vértebras. O assoalho estava queimado 50 centímetros ao seu redor.
Para a infelicidade de Millet, a casa era cuidada por uma empregada muito bonita. O caso, evidente para os juizes, foi conduzido eficazmente e Millet, condenado. A corte de apelação, mais esclarecida, reconheceu os fatos da combustão espontânea e Millet foi absolvido. Nem por isso deixou de ficar arruinado; ator­mentado pela tristeza, foi reduzido a terminar seus dias no hospício.

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