Os fatos
A combustão espontânea do corpo humano é conhecida há muito tempo. Em 1763, Jonas Dupont apresentou, em Lyon, uma tese de doutorado: De incendiis corporis humani spontaneis; ele foi o primeiro a tratar do assunto oficialmente. Vicq d'Azyr diz ter conhecido pessoalmente vários casos do fenômeno (Encyclopédie méthodiqué). Entre os trabalhos recentes, citamos: Firefrom Heaven or How Safe Are YOU from Burningl (Fogo do Céu ou o quanto VOCÊ está seguro de não queimar?), de Michael Harrison (1976). Uma moça de dezenove anos, Maybelle Andrews, dançava com seu amigo Billy Clifford num night-club, de Sono, quando se viram chamas brotarem de suas costas, de seu peito e de seus ombros, atingindo seus cabelos. Ela morreu antes de chegar ao hospital. Billy, gravemente queimado tentando salvar sua amiga, explicou que não havia chamas nuas no local; elas pareciam brotar da própria garota (Shurmacher). Phyllis Newcombe incendiou-se sem razão aparente e foi queimada diante de uma multidão, num dancing, em 1938. O Sheffield Independent relata o caso de um empresário da construção, G. A. Sheferdson, que acenava para um grupo de operários os quais ultrapassava, de carro, quando estes o viram transformar-se repentinamente numa tocha humana. Em outros casos recentes, pessoas foram queimadas parcialmente na cabine de seu caminhão, sem que se pudesse descobrir a menor causa para isto (A. F. Smith em Birkenhead, M. Éveillé em Arcis-sur-Aube). A eletricidade estática poderia ser invocada, mas não no caso de Maybelle Andrews, que estava dançando o watusi e cuja pele estava certamente coberta por uma fina película de suor. Aliás, os pneus de um caminhão não a isolam do solo?* O caso célebre e particularmente bem estudado de combustão espontânea é o de Mary Hardy Reeser, de sessenta e sete anos, de Saint Petersburg (Flórida). No dia lo de julho de 1951, um forte cheiro de queimado desprendeu-se de seu apartamento. Sua porta, cujo trinco estava quente demais para ser tocado, foi forçada. O ar do apartamento estava extremamente quente. Havia um círculo de aproximadamente 120 centímetros de diâmetro, dentro do qual se encontravam uma certa quantidade de molas de assento, um montículo de cinzas e alguns restos do corpo. O chefe de polícia, J. R. Reichert, declarou: "Até onde podem ir as explicações lógicas, aí está uma das coisas que simplesmente não pode acontecer, mas aconteceu". * Na realidade, é justamente o isolamento através dos pneus que propicia o acúmulo de eletricidade estática no caminhão, a qual não pode ser facilmente descarregada no solo. (N. da T.).
A condessa Cornelia Bandi de Cesena
tinha sessenta e dois anos de idade quando queimou espontaneamente. O caso já é
antigo, pois o Annual Register que o relata data de 1763, mas foi
estudado pelo físico David
Brewster. Os vizinhos perceberam uma fumaça amarelada, muito espessa, exsudando das janelas do quarto da condessa. Ao
entrar, encontrou-se um monte de cinzas a 1,
50 metro da cama. Do corpo, só restavam
as duas pernas e uma parte do crânio. O ar do quarto estava cheio de uma fuligem em suspensão, da qual os móveis
estavam cobertos; esta fuligem era
úmida e colante e exalava um odor fétido. Nem os móveis nem o assoalho haviam sido danificados; apenas as duas
velas de sebo sobre a mesinha de
cabeceira haviam derretido, mas os pavios estavam intactos.
Curiosa combustão! O assoalho não se
inflama, as meias permanecem intactas, assim como os pavios, o que indica uma temperatura não
excedendo 120°C. Por outro lado, os ossos foram reduzidos a pó, o que exigiria uma temperatura de pelo
menos 1.300°C, que teria provocado o incêndio geral do aposento, tanto quanto uma bomba incendiária. Por outro lado, ainda, a fuligem
flutuante é característica das combustões incompletas a baixa temperatura,
com uma oxidação insuficiente; e a fumaça amarela semilíquida, ou seja, pesada e compacta, é aquela das destilações a baixa temperatura.
O célebre médico Vicq d'Azyr relata,
na Encyclopédie méthodiqué, que conheceu vários casos semelhantes, onde só restaram algumas partes
ósseas.
Quando a SHC era ainda desconhecida,
ao presenciar um corpo assim queimado, a polícia e a justiça só podiam concluir que se tratava de um crime. O caso seguinte é, sem
dúvida, o primeiro em que o médico conseguiu convencer os magistrados do contrário e salvar o acusado.
Em 1725, uma certa Sra. Millet,
mulher de um padeiro de Reims que se embebedava todos os dias, foi encontrada consumida entre uma masseira e uma salgadeira, que não tinham
quaisquer marca de fogo. Do corpo só restaram as pernas e algumas vértebras. O assoalho estava queimado 50 centímetros ao seu redor.
Para a infelicidade de Millet, a
casa era cuidada por uma
empregada muito bonita. O caso, evidente para os juizes, foi conduzido
eficazmente e Millet, condenado. A corte de apelação, mais esclarecida,
reconheceu os fatos da combustão espontânea e Millet foi absolvido. Nem por isso deixou de ficar
arruinado; atormentado pela tristeza,
foi reduzido a terminar seus dias no hospício.
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